A mulher irlandesa que enganou o Império Britânico. 

James Barry, o cirurgião mais famoso do século XIX, afinal era uma mulher. Escondeu esse facto durante quase 50 anos.

Só quando James Barry morreu, em 1865, vítima de disenteria, se descobriu o segredo deste cirurgião que fez carreira no exército britânico. A enfermeira que preparava o seu cadáver para o enterro ficou estupefacta quando descobriu que ele era, na verdade, uma mulher.

O caso gerou tanto embaraço ao exército britânico que a verdade permaneceu escondida, como um “segredo militar”.  Os documentos com a verdadeira identidade de James Barry só foram encontrados em 1958, pela académica Isobel Rae.

O caso é tão extraordinário que já mereceu a atenção de Hollywood e em preparação está um filme biográfico com a actriz Rachel Weisz a desempenhar o papel desta mulher pioneira, que se disfarçou de homem para cumprir o sonho de ser médica.

Ela foi a primeira mulher a formar-se em medicina, no Reino Unido, 50 anos antes de a primeira mulher ser autorizada a exercer medicina no país.

Em 1809, durante o amargo inverno londrino, uma jovem irlandesa iniciou um processo que iria enganar o poderoso e gigantesco Império Britânico. Não se querendo confinar à existência simples como mulher, decide transformar-se num homem.
Margaret Bulkley tinha vinte anos. Nasceu em Cork, em 1789, no seio de uma família respeitável: o seu pai Jeremiah, tinha uma loja no Merchant’s Quay (zona de barcos). Era uma época de bons negócios, sendo Cork um dos principais pontos da rede de comércio e de guerra do Império Britânico. Seguindo-se a rebelião de 1798 e a agregação da Irlanda pelo Reino Unido, Jeremiah perdeu o seu negócio e pequena fortuna. A repressão anti-católica, os eventos que se seguiram, impediram que pudesse dar educação a todos os filhos. Foi através de pesados empréstimos bancários que a conseguiu proporcionar, mas apenas ao filho varão.
Margaret, que era mais inteligente do que o seu irmão e foi educada nas expectativas de uma família de classe média, cai na pobreza. A fazer pesar mais o seu fardo, no final da sua adolescência é violada por um tio, dando à luz uma criança. Margaret e a sua mãe fogem para Londres, deixando Jeremiah preso por não pagar os seus empréstimos. Procuram ajuda junto do tio excêntrico de Margaret’, o pintor James Barry, cuja reputação estava estabelecida como um artista que tanto tinha de talentoso como de louco.
Quando morre o seu tio James, Margaret é levada como protegida dos seus amigos intelectuais, entre eles o General Francisco de Miranda (um revolucionário venezuelano no exílio). Margaret decide usar a sua pequena herança num propósito único. Com o encorajamento do General Miranda, ambiciona tornar-se cirurgiã e partir para a Venezuela para ajudar na Guerra da Independência deste país. Claro que, no início do séc. XIX, era impensável para uma mulher estudar medicina, quanto mais poder exercê-la. Mas Margaret, uma jovem inteligente, com visão e coragem. decide disfarçar-se de homem. Adopta o nome do seu falecido tio – James Barry – e parte para a Universidade de Edinburgh. Surpreendentemente, é aceite na Universidade, desculpando-se por ser muito jovem pela sua aparência fresca e baixa estatura.

Foi uma vida dura, 16 horas por dia de aulas, estudo, classes práticas e experiência em enfermarias, autópsias em salas sem condições de higiene, sempre num ambiente masculino. No entanto, o agora James Barry prosperou e regressa a Londres como um médico qualificado. Meses depois, é aceite no Royal College of Surgeons. Toma então uma decisão. Ir para a Venezuela já não era opção, pois o General Miranda foi traído por um amigo e estava agora numa prisão espanhola.  Em vez disso, decide continuar como James Barry e alistar-se no Exercito Britânico como cirurgião.

Nos 50 anos seguintes, Margaret Bulkley enganou o Exército, a alta sociedade e todo o Império Britânico – de Jamaica a Malta, da Comadade do Cabo à Crimeia. O Dr James Barry tornou-se um cirurgião reconhecido, um pioneiro de técnicas médicas  (em 1826 conduziu o primeiro parto por cesariana com sucesso, um procedimento que era inevitavelmente fatal para a mãe). Era o médico favorito na alta sociedade, e o médico privado escolhido pelos nobres.

Apesar de muitos acharem que o Dr. Barry era peculiar e efeminado, ninguém suspeitava que debaixo da sua impecável jaqueta se encontrava alguém que tinha nascido mulher.

E, mesmo que suspeitassem, ninguém acreditaria. Afinal, segundo os valores de época, era inconcebível que uma mulher tivesse capacidade de exercer os desafios da medicina e cirurgia.  Nem os desafios intelectuais, quando mais os físicos.

Este era um tempo em que não havia anestesia, em que os pacientes tinham de ser segurados e a amputação era um tratamento comum para fracturas e infecções. Mas Margaret Bulkley tudo dominou, e ainda se excedeu. Impressionou o departamento médico do Exército Britânico, a Rainha Victoria, Lord Raglan,  Florence Nightingale. Até o astuto conselheiro de Napoleão, que foi tratado pelo Dr. Barry durante o seu cativeiro, foi enganado.

O segredo não podia durar para sempre. O Dr James Barry morreu em Londres, em 1865. As suas indicações para o funeral era de que fosse enterrado nas roupas que vestia quando morreu, sem exames. Mas as instruções ou se perderam ou foram ignoradas. Uma auxiliar contratada para limpar o corpo descobriu a verdade sobre o seu sexo.  Inicialmente tentou chantagear o exercito, quando esse estratagema falhou lançou a notícia aos jornais. Foi primeiro noticiado na Saunders’s News-Letter de Dublin, e espalhou-se pelo Império.

Durante anos, a especulação sobre a identidade e os motivos de James Barry’ foi crescendo. A biografia que agora se escreveu, 150 anos depois dos acontecimentos – “Dr James Barry: Uma Mulher À Frente do Seu Tempo” – usa um manacial de material de arquivo que antes não estava disponível, e revela a história completa de Margaret Bulkley, uma das mais ilustres filhas da Irlanda.

A sua vida como James Barry foi uma sucessão de conquistas audaciosas: a primeira mulher a tornar-se médica; a primeira pessoa a fazer uma cesariana com sucesso; uma pioneira das reformas dos hospitais em termos de higiene; a primeira mulher a tornar-se General no Exército britânico (a comissão de Barry, assinada pela Rainha Victória, ainda existe).

A pressão de conseguir todos estes feitos enquanto mantinha o disfarce de homem teve os seus efeitos em Margaret. James Barry tornou-se conhecido também pelo seu temperamento irascível, a sua intolerância perante opiniões contrárias, e as respostas violentas de cada vez que sentia que o seu disfarce estava sob ameaça. Numa das ocasiões, rasgou a face de um oficial com um chicote de montar, quando ele fez um reparo sobre a sua aparência afeminada. Noutra, travou um duelo em que foi ferido na anca (o seu oponente foi ferido na testa, a bala foi desviada pela ponta do chapéu).

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